terça-feira, 13 de julho de 2010

Citação:


Marguerite Duras (1993, p.65), em seu livro Écrire:


Il y a une folie d’écrire qui est en soi-même, une folie d’écrire
furieuse mais ce n’est pas pour cela qu’on est dans la folie. Au
contraire. L’écriture c’est l’inconnu. Avant d’écrire on ne sait rien
de ce qu’on va écrire. [...] Si on savait quelque chose de ce qu’on
va écrire, avant de le faire, avant d’écrire, on n’écrirait jamais.¹


¹ “Existe uma loucura de
escrever que está em si mesma,
uma loucura de escrever
furiosa, mas não é por isso que
ela estaria na loucura. Ao
contrário, a escrita é o
desconhecido. Antes de
escrever, não sabemos nada
disto que vamos escrever. Se
soubéssemos alguma coisa
sobre isto que iremos escrever,
antes de fazer, antes de
escrever, nunca
escreveríamos.”

Palavras de Marguerite Duras (1993, p.38):

L’écriture a toujours été sans réferénce aucune ou bien elle
est... Elle est encore comme au premier jour. […] Donc c’est
toujours la porte ouverte vers l’abandon. Il y a le suicide dans la
solitude d’un écrivain. On est seul jusque dans sa propre solitude.
Toujours inconcevable. Toujours dangereux. Oui. Un prix à
payer pour avoir osé sortir et crier.²


² “A escrita teria sido sempre
sem referência nenhuma, ou
então é... Ela é ainda como no
primeiro dia. Logo, ela é
sempre a porta aberta ao
abandono. Há o suicídio na
solidão do escritor. Estamos
sós até em nossa própria
solidão. Sempre inconcebível.
Sempre perigosa. Sim. Um
preço a pagar por ter ousado
sair e gritar.”

domingo, 11 de julho de 2010

Eutanásia


Só você consegue ver meus traços quando em meio aos embaraços me esquivo com os olhos. É que nem se eu te contasse tudo o que sinto, tu não irias entender-me e por isso finjo não sentir: foi o sentimento de brevidade que me tocou quando olhei para você. Então eu resolvi desligar os tubos dos respiradores que nos liga um ao outro. Eu quis que fosses embora. Eu não sei viver uma vida sem sofrimento e, numa falsa piedade, não quero que sofras comigo (...)



quinta-feira, 8 de julho de 2010

Florbela Espanca

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!




Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


Florbela Espanca